JUSTIÇA RUBRA

   Os cadáveres se multiplicam com as chuvas. Erguidos dos escombros, eles iniciam seu repugnante espetáculo aos corvos. Pois, não há outros que os percebam estirados pelas calçadas. Os humanos estão ocupados comemorando o fim da desigualdade social, da miséria humana. E, quando o espetáculo se encerra, não há choro nem rosas vermelhas sob o palco.

  A chuva lá fora atinge a consciência dela. Pois, a enchente traz consigo conterrâneos seus.  Anêmona ouve de dentro. Está abrigada. Não deveria se preocupar, mas… Esta prosa pertence a Bianca. Ela convenceu a família da sua benevolência, dos seus feitos heroicos. Mentiras. Enquanto uma dizia-se encantada com tamanho ronronar, a outra esperneava, desesperada para enterrar seus mortos.

  Por muito tempo a pequena se lamentou. Ao seu redor haviam vozes baixas e monossilábicas. Pouquíssimas aparições. Mas, o sentimento persistia. O do equívoco. Talvez não fosse a única sem raízes ali. E, à cada dia em que a loira se machucava, Anêmona sentia os resquícios da noite e daquele que pouco aparecia. Ícaro. Mas, ainda assim, ela tentou fugir uma última vez. Ao olhar para trás, deparou-se com Bianca. Nunca havia reparado nos seus cachos de sol, nos olhos oblíquos e sorriso triste. E então compreendeu: Sendo semeada num campo infértil, ela cresceu alecrim irritadiça.

  Anêmona enxuga suas lágrimas. Seus conterrâneos se distanciam a cada segundo mas, suas histórias pertencem ao presente. Assim como as flores sem raízes. E, não serão alguns corvos que lhe roubarão o esplendor. A vida para contá-lo.

  Ela escuta os passos se aproximando de si. Os mesmos de quando Bianca caia da escada. Anêmona se vira. Ele está de farda, abrindo os braços para envolvê-la na sua maldade.  Cavalete para expor arte rubra. 

  O rangido da porta desperta Anêmona de suas utopias. Ela se sobressalta, temendo as consequências. Mas, o que surge é a fragrância de vinho tinto no ar, revelando quem aguardava.

  Do outro lado da sala, o homem sussurra em direção à porta. Sua boca está sedenta por cachaça.

  Pouco tempo depois, uma garrafa se estilhaça. Fora da residência, os corvos que estão sob os cadáveres acompanham exclamações. Ao longo do rosto do homem vê-se a sentença:

JUÍZO FINAL