NÓS PERCEBEMOS A IMPORTÂNCIA DE NOSSA VOZ QUANDO SOMOS SILENCIADOS.    -Malala Yousafzai

ENREDO

  Em um país grande como o Brasil, há espaço para contrastes. Principalmente quando se observa o social, as mulheres enquanto indivíduos. Ao mesmo tempo em que muitas usufruem do direito ao não, outras sofrem com distúrbios alimentares. Isso ainda é uma realidade. Esses problemas e tantos outros, tais como a violência doméstica contra a mulher, estão associados com a visão cultural sobre elas. De como elas devem ser e se portar. São coisas das quais têm-se consciência hoje. Discute-se a respeito. Mas, e nos anos 80? Quando os contrastes eram ainda mais acentuados?

  Em 1980  era exibido o programa  TV MULHER  pela Rede Globo. Nele, dependendo do quadro, havia um contato entre as telespectadoras e as apresentadoras através de cartas. As mulheres escreviam (escondidas ou não) e assistiam as respostas. E é claro, isso trouxe impactos em suas vidas. Tanto que, essa troca auxiliou na composição desse livro.

Trecho da abertura do programa

  Um dos quadros do programa era conduzido pela sexóloga Marta Suplicy. Logo, os aspectos questionados pelas mulheres em cartas envolviam justamente a sexualidade. Contudo, Marta começou a perceber um padrão. Algo que aos poucos  se tornou gritante em suas leituras. Mais do que uma insegurança em relação ao corpo, havia um horror naquelas mulheres de perderem ‘seus’ maridos. Portanto, tudo que era ensinado destinava-se a evitar este mal. Mas, por quê? O que  iriam perder em um divórcio? Que certeza elas tinham de que isso iria acontecer?

Partindo deste princípio, Marta revelou a Mariazinha.  Ela é aquela que toda uma geração de meninas foi ensinada para ser. Ou seja, a bela, recatada e do lar. Contudo, o mundo começou a exigir mais dela. Ela precisava trabalhar. Mas, nada de deixar o marido sem jantar. Sem cuidar das crianças. E a Mariazinha, que parecia para os outros tão satisfeita, começou a perceber o quanto é injustiçada.

  O que fazer? Tudo o que a Mariazinha aprendeu é relativo ao corpo (estético, não teórico) , às tarefas domésticas ou ao cuidado de crianças. Ela não sabe enfrentar à vida. Lidar com dificuldades sem que alguém a ajude.  Pertinente, não é mesmo?

Impressões

  Um estudo sobre nós: Mulheres. É isso que este livro dos anos 80 é.

  “De Mariazinha a Maria” é uma relíquia pois, ele trás consigo o início do Feminismo no Brasil. A partir dele, muitas mulheres começaram a crescer enquanto indivíduos. A se verem como pessoas.

  Se você é alguém que não entende o movimento Feminista, ou que não concorda, é interessante dar uma chance a este livro. Ele é o princípio. Então, se torna mais fácil de entender o hoje (desenrolar) a partir da introdução, do passado. E, se mesmo lendo, ainda não houver concordância, o livro ainda será válido. Pois, é possível aprender com ele. A Marta não usa termos complicados  para expor suas ideias. Então a leitura não é maçante. E, as ideias são colocadas com sensatez.

  O problema que Marta  aborda não é  da mulher se casar e querer arrumar a casa. A questão é o ensino que essa mulher recebe desde a infância. Por que não dizem para elas que é preciso que sejam corajosas, fortes, para lidarem com as adversidades da vida? Ou, de que é importante se sentir bem para si mesma? Nisso, até hoje (pois, essa educação não mudou por completo em todo o país) encontramos mulheres tão dependentes do outro no aspecto financeiro e/ou emocional que, por sentirem que não podem ser fortes sozinhas, entram em relacionamentos tóxicos/doenças psicológicas e não conseguem sair deles. Ficam presas por que não há mais nada que elas saibam fazer.

  Se o outro cuida tanto da vida da mulher, ao ponto de ela só precisar limpar a casa, o que  sobra para ela? O que ela aprende da vida?

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Ou seja… 

Livrão para os curiosos, que têm visto tantos casos de feminicídio nos noticiários e querem entender. Para vocês, homens, que podem ser um canal de respeito. E para nós, mulheres, que esperamos  viver até a velhice.

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