MUNDO REAL

 Aqui há sempre turistas confusos, xeretando nas árvores. Pois, os narizes humanos enxergam o néctar das abelhas e os olhos apalpam a grama. Os sentidos se embaralham, o sol põe-se na madrugada. Logo, os conhecimentos práticos deles não possuem serventia aqui.
Trata-se de um miúdo território, localizado no extremo oeste. Ele existe desde o início da humanidade. Contudo, os nômades eram distraídos e seus antecessores libertinos. Ao crescer vendo tudo isto, revoltei-me. Sentia-me terrivelmente só, minhas mangas nunca seriam colhidas por ninguém. Ao florescerem, estragavam. E então tudo mudou na vagareza dos pôr dos sóis.
As transformações começaram na grama, que se tornou fosforescente. Não percebi de imediato, é claro. Culpei a opressão dos raios solares, a intensidade das chuvas e até mesmo a poluição. Isto soa incapaz de caracterizar um argumento, até mesmo obsoleto, por ser. Quando me dei por mim, não floresceram mangas. E sim borboletas roxo-prateadas, inconstância. Minhas efêmeras voaram e dispersam-se em terras distantes. O solo me confortava nos piores dias, com as joaninhas cavoucando minhas raízes. E assim sucedeu-se por milênios. A natureza transformou-se num quebra cabeças cujas peças ainda são invisíveis aos humanos, apesar de haver um sutil delineado no embaçado da visão.
Sou milenar neste jardim. Por isto, compreendo o sentimento por trás dos sons que os humanos produzem. Quando se aproximam de mim, ouço fascínio. Contudo, não há quem fique para deleitar-se com as estrelas da manhã. Os poucos que passam alguns segundinhos a mais, como você, desistem. Pois, decepcionam-se ao regressar para o mundo real. Aqui não se rege pela rapidez. É pelo marasmo, onde se sente e raciocina. Mas, caso anseie ficar, criança… Há um nome para mim, da época em que dragões lutavam contra vocês. É “Escrever”.

E, lhe digo um segredo: este lugar se chama “Intelecto.”

op 1

Escrito por Amanda Ferreira =)