ALECRIM DOURADO

A disenteria e os mortos são multiplicados pela chuva incessante. Contudo, ninguém os percebe estirados nas calçadas.  Nenhum choro ou flor é derramado por eles. Pois, os humanos comemoram o fim da desigualdade social, da fome. Contemplo os jatos cortando nuvens pela vidraça, enquanto a enchente prossegue seu curso, trazendo consigo conterrâneos meus.

Bianca “salvou-me”, de acordo com sua prosa aos familiares. O escárnio consumiu meus pensamentos por dias. Pois, claro, deveria sentir-me honradíssima. A benevolente deusa dos cabelos loiros havia gasto seu tempo ao abaixar seus oblíquos olhos para calçada e perdido o sono ao ver-me em tão deplorável situação. Como revoltar-se contra a verdade em suas palavras? Sendo que, este ser tão afável retirou o melhor de seu vistoso banquete, ou seja, ossos velhos, para alimentar-me?    Enquanto desventurava-me aflita naquele recinto estranho com tais pensamentos, Bianca dizia a Ícaro o quanto eu ronronava e rolava no tapete.

O recinto onde vivíamos era pequeno. Logo, as melodias entoadas por Bianca retumbavam pelas paredes, assim como seu silêncio. O último possuía um som, uma mistura de sussurros e choros na madrugada. Contudo, Ícaro não conseguia ouvir. Encobria o silêncio sem querer, narrando suas épicas histórias pelas quais não se interessava. Em dias, o escárnio transformou-se em compreensão. Bianca, com seus cachos de sol, olhos oblíquos e sorriso triste. Sendo semeada num campo infértil, tornou-se um alecrim dourado irritadiço.

Vivo num jardim curioso: As flores murcham logo ao nascer. Pela ausência do sol, por enchentes e diversas razões. Presenciei este ressecamento minha vida toda. Mas… Aquele alecrim arraigou-se à força da insistência em mim, criando profundas raízes. Por isso, cravei as unhas em Ícaro. Este tardará a ver o pôr do sol.

Por todas as flores que tiveram raízes arrancadas, pétalas queimadas e néctar roubado, fortaleci-me. Meus conterrâneos se distanciam a cada segundo, mas, suas histórias pertencem ao presente. Assim como as flores murchas. Como Bianca e eu.

alecrim

POR AMANDA FERREIRA QUEIROZ SANTOS