Fábula do Tempo

A infância colorida de cinza, sem regalias ou eufemismos. Esta é a fábrica e os que a habitam, nós. Desde meu nascimento os outros se asseguraram em
preencher os momentos de quietude com os mitos assombrosos dos humanos. Segundo eles, quando você deixar de representar algum valor, seu destino tende entre manchar-se com fezes ou lixo. Após ser embalado, reprimiram-me numa prateleira onde eu era exposto para os humanos. E, os últimos tornaram mitos em meu presente.
Ouço os passos do meu dono, remetendo sua costumeira despreocupação. A roupa descascada não o incomodava, nem mesmo as minhas cerdas abertas. Até ontem. Eles compraram outro de mim, embalado com o mesmo rótulo! Assim que ele tentou se enturmar comigo, empurrei-o para privada. “Nativos se entendem” segundo ele. Realmente, pressenti suas más intenções desde que se aproximou de mim. O meu dono interrompe seu trajeto para observá-lo flutuar entre blocos marrons.
Ser jogado no lixo é um destino trágico e particular que esperava vivenciar sozinho. Enganei-me novamente. Vermes sobem pela minha perna, restos de baratas enroscam-se nas minhas cerdas. Enquanto isso, o outro está dentro da lata de leite fermentado! Se o nosso destino é este, ao menos ele deveria sofrer tanto quanto eu.

Em cada passo despreocupado do humano em minha direção, a esperança e a dúvida fluíam em minhas feições. Pois, seria minha a honra de servir um
nobre? Desde a infância, minha família fantasiava com o proprietário, legítimo herdeiro da Macedônia ou típico americano. Mas, não. O destino apresentou-se no esplendor de um brasileiro, loiríssimo de olhos azuis. Quase um americano, disse meu pai ao despedir-se. Tornei a sorrir. Nativos se entendem.
Entrando no banheiro, imediatamente encontrei outra escova. A zona de conforto –embalagem- dirigiu-se ao esquecimento, logo resolvi me enturmar. A sabedoria de meu conterrâneo exalava pelas suas cerdas encardidas, seu corpo demonstrava anos de serviço. Convivendo com outras escovas,
rapidamente percebi sua irritabilidade. A manhã estava sendo má com ele e seu equívoco nos jogou no lixo.

-Compartilhamos o mesmo rótulo, sim, mas você não veio do mesmo lugar inóspito que eu. Não sabe como é servir a alguém e depois ser forçado a compartilhar seu trágico destino, onde você teria um mísero momento só seu. Logo, responda-me: Como você pode entender meu sofrimento se o pior que lhe acontece é ser cercado por leite fermentado?

-Sou alérgico.

 

Escrito por Amanda Ferreira Queiroz 

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