Senhoras e senhores..

  Eu, a manivela, a Bailarina e a melodia éramos invejadas pelo ansioso público. Cada um auxiliava no esplendor da Bailarina nas vitrines, onde sua graça era exibida aos catarinenses. Hoje, a equipe encontra-se reduzida ao esquecimento. O tempo correu e nós ficamos para trás. O envelhecimento chegou e fez sua morada. Meu corpo constitui-se de pó, a manivela está encardida, da bailarina restaram do um par de pernas e a melodia é receosa. O corpo másculo da juventude foi-se com o aspirador de pó. Porém, a alma permanece a mesma: inquieta. Ela insiste em conceber um último espetáculo com o meio corpo da Bailarina.
  Há uma casa. Seus habitantes são reclusos, foram excluídos da sociedade onde viviam. O retrocesso do pudor e sentimentos é constante. Eles assemelham-se às formas primitivas de vida. Quando o silêncio apodera-se da residência, ouve-se um monossilábico seguido de um baixo balbucio da outra parte. A ausência de palavras não é o paralisante. Não sei se chegarei lá. Todo sentir poético é inexistente: As estrelas não proporcionam reflexões, é aceitável a cinza substituir o verde e as crianças transformam-se em cópias dos adultos. A repressão deste lugar arrancou a cabeça de nossa artista, a Bailarina. Apesar disto, não desistimos em disseminar nossa poesia. E então… Roubaram-na. Assim como todas as outras partículas que compõem esta casa. A tradição consumista foi realizada e logo perdemos o valor. A Bailarina tornou-se uma entre mil bugigangas que somam mais lixo ao ambiente. Porém, eles esqueceram-se de algo: Somos um lixo valioso. Na parte interna de minha caixa, há um baú. Nele colocaram papéis pertinentes… Em breve iremos começar nosso espetáculo. Como anfitrião e veterano, posso afirmar que considero o fim o ápice do espetáculo.
  Hoje, no entanto, é o começo. O público fardado e armado se aproxima receoso por descobrir em qual das bugigangas há o lucro. Espero o momento certo para cair e despertar sua atenção para nós. As pernas da Bailarina começam a girar. A música tem início, disseminando o pânico nos residentes da casa que em breve perderão sua liberdade. Sejam bem vindos, ladies and gentleman’s!

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Escrito por Amanda Ferreira