Desanuviando o fosco:

 Sou artista. Sinto as consequências das minhas criações. Não há um instante em que não sinto a bela complexidade do universo e as contrariedades dos humanos. A arte que há em mim não é efêmera- o próprio tempo não é capaz de me apagar. Antes da existência dele, eu já estava. O tempo é meu aluno. Ele aprendeu as peripécias que atormentam os humanos comigo: O inicio, meio e o fim. Particularmente, não assumo a responsabilidade por este lamento dos humanos. As oportunidades para ingressar em minhas aulas são ilimitadas e os poucos que usufruem disto libertam-se das peripécias do tempo. 
 Além disto, os abençoei em sua criação, tornando-lhes semelhantes a mim. Eles podem criar e possuem a dádiva do pensar. No entanto, os humanos insistem em valorizar o que até mesmo as lesmas podem fazer! Eles estão a mercê do amor, podem interligar-se intensamente ao outro, ao hoje. Porém, a fixação dos humanos é o futuro. Coitados, o tempo não dispõe de piedade: O presente perdido serve de consequência ao futuro. É irônico. Cobras não podem se debruçar sobre um balanço e sentir o poder emanado dele, as formigas unem-se por sobrevivência – e ainda sendo incapazes de raciocinar, pensam mais do que os humanos.

 Eu os dei o poder de sentir, permitindo a eles revolucionar todas as outras espécies através da compaixão. Mas, por que eles insistem em me ignorar e trapacear? Foram as minhas palavras que constituíram o mundo que os humanos tanto vangloriam. Logo, qual o sentido de usá-las contra mim? As contrariedades entre eles apenas crescem ao longo dos séculos. Principalmente a persistência em ser dono do fim. O mundo é minha obra. Ele acabará com um sussurro meu. Não se engane pelo meu aparente ressentimento. Sinto-me esquecido pelos meus semelhantes. Ainda assim, o esplendor emanado de mim relembra-me deles. Caras constelações perdoem-me: O fim e o começo estão próximos. Então as direções de seus reflexos podem sair do mundo? Pois, há um nítido terror em vocês.

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Escrito por Amanda F. Queiroz