A reportagem, mais especificamente o trecho acima propiciou diversas piadas nas redes sociais por conta da ironia da “Senhora”.  Aurélia Camargo, a Senhora do livro também é a principal responsável pelas contradições existentes no livro.

  Afinal, como já dizia Renato Russo: Quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer que não existe razão? 

♦Sinopse: 

Desde a estréia de Aurélia Camargo na sociedade ela foi consagrada a rainha dos salões, a ídola dos noivos em disponibilidade. Ela é perspicaz e repugna seus adoradores. Porém, o que a motiva é seu coração dilacerado. 

A mocidade da protagonista foi colorida pelos tons da miséria. Ela desdobrava-se ajudando a mãe e o irmão… Porém, as peripécias da pobreza a fisgaram: No momento em que ela se encontrou apaixonada, seu par romântico, Fernando Seixas a trocou por uma esposa mais rica. 

 Nisto o tempo passou… O destino trouxe-lhe sua vingança: Ela tornou-se herdeira de inúmeros contos de réis deixados pelo seu avô. E claro, estando só no mundo (sua mãe e irmão faleceram) planejou a vingança: Aurélia Camargo compra o amor de Seixas, tornando-se proprietária de sua pessoa. 

As peripécias do amor dilacerado de Aurélia e a insistência do Fernando para resistir à dominação desta senhora são mesclados sutilmente com interesses sociais de José de Alencar. 

Minha Opinião: 

  José de Alencar é considerado um dos maiores (se não o maior) romancistas do Brasil. Porém, para outras pessoas ele representa um terror estudantil –Iracema, Ubirajara e O gaúcho são exemplos de livros que contribuem para este trauma-.  

  No entanto, Senhora é um livro acessível. Quer dizer, ele não foge aos exageros de linguagens e as outras características dos livros dele.  Porém, Senhora possui um enredo simples e um ritmo próprio. Portanto, se você embarcar na leitura disposto a fluir com as descrições dele e não entendê-las de imediato, a leitura é deliciosa.  

  Gostaria de deixar marcado que, no momento em que “soube” sobre como ele via as coisas ao seu redor o considerei um tanto irônico. Quer dizer, em grande parte do texto há a separação dos personagens por conta do dinheiro, representando o desconforto dele com as pontas do capitalismo em sua época. Porém, me deparei com esta passagem: (claro que há o sentido do texto mas, não pude deixar de me questionar)

  -Então entende que depois de privar-se um homem de sua liberdade, de o rebaixar ante a própria consciência, de o haver transformado em um instrumento, é lícito, a pretexto de alforria, abandonar esta criatura a quem o sequestraram da sociedade? (…)

  José de Alencar descreve esta frase com um tom de justiça ou certa indignação… Porém, ela encaixa-se perfeitamente à situação dos escravos no Brasil, principalmente depois da Lei Áurea (1888). EU NUNCA IRIA SUPOR QUE ELE APOIAVA A CONTINUIDADE DA ESCRAVIDÃO. Me perdoem pela frase em maiúsculo, precisava dar ênfase à minha conclusão: Não é certo excluir como o autor pensava sobre o mundo, pois isso se reflete em suas obras. É irônico apoiar a liberdade de apenas uma classe social, mas ele é o exemplo dos seres humanos: Ninguém é 100% ruim ou bom. 

♦Aspectos interessantes da obra:

Aurélia Camargo

 A construção psicológica desta personagem, assim como os outros, é interessantíssima. José de Alencar consegue fazer com que nos sintamos apegadas por Aurélia e por suas peripécias. Acredito que a principal palavra para descrevê-la é: Senhora de si. Porém, apesar de estar consciente do seu poder, ela ainda está distante da realidade. “Aurélia amava mais seu amor do que seu amante, era mais poeta do que mulher…”

Norma Blum

Norma Blum

Frases e pensamentos

  Semelhante a outros livros resenhados no Ei, Dom Casmurro e O morro dos ventos uivantes, este livro possui inúmeros momentos marcantes. São frases, partes a respeito dos escrúpulos (não é, Sr Alencar?) da sociedade brasileira e da construção de Aurélia que fizeram o meu exemplar terminar assim: 

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  Além dos motivos acima, Senhora é um livro adequado para quem está começando a ler livros nacionais. Após Dom Casmurro, recomendo a leitura deste. Nem sempre o ritmo do livro vai fluir perfeitamente mas, o apego com os personagens incentiva-nos a ir até o fim. 

Interessou-se pelo livro? Terá uma Sessão das frases dele na fã page do Ei: Para acompanhar este e outros posts, clique aqui.